Há aproximadamente um ano escrevi aqui sob o título 4/2/1981, relembrando os 30 anos de falecimento do meu pai.

Valmício de Aguiar foi embora aos 42 anos. Fecho os olhos e ainda ouço sua voz, sinto suas mãos calejadas do trabalho pesado, da colher de pedreiro; seu rosto já envelhecido pelo sol. Olhos azuis, brilhantes mas tristes; nos lábios havia sempre um sorriso e uma palavra alegre, despojada, estava o tempo todo bem-humorado.
Também gostava de escrever suas frases, uma delas guardo comigo, atrás de uma fotografia: "Para ver tristeza em mim é preciso penetrar em meu interior."
De fato, não aparentava tristeza, mas não teve uma vida feliz. Nasceu, cresceu, casou, teve filhos, separou, adoeceu, morreu. Cumpriu um ciclo, uma missão? Talvez!
A profissão de pedreiro exercia com prazer, era mestre. A dependência do álcool começou a atrapalhar, mas não a impedi-lo. Hoje entendo melhor, na verdade, apenas agora entendo o quanto é difícil lidar com qualquer tipo de dependência.
Meu pai foi se deixando consumir pelas suas tristezas, amarguras, decepções, derrotas, angústias e, principalmente pela dependência da bebida. Tudo junto gerou um câncer fatal.
Ele não percebeu que precisava de ajuda,não pediu socorro, não procurou reverter a sua vida sofrida. E quem o conhecia, aqueles que estavam por perto, sabiam que o sorriso era fingido, que as piadas eram falsas, que os gracejos eram disfarçados, porque o coração estava angustiado, machucado, mas ele não se expunha, não se permitia ser ajudado. Era orgulhoso, dizia sempre que estava ótimo.
Bem, de qualquer forma, cumpriu sua jornada, porque continuo acreditando que nada é em vão, que todos passam pela vida com uma missão. Meu pai viveu 42 anos, tinha um grande coração, era amigo pra todas as horas e estava sempre rodeado por eles, sinto ainda sua falta e rezo para que tenha encontrado a paz ao lado de Deus!
MARIA CONCEIÇÃO DE AGUIAR

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