Estou cansada das desigualdades sociais, das hipocrisias desconcertantes, das incoerências da globalização.
Estou cansada das injustiças, dos paradoxos, das ineficiências!
Estou cansada dos discursos vazios, dos políticos sem escrúpulos, da exploração da vida.
Estou cansada das falsidades, das mentiras, das falácias!
Estou cansada de saber que ainda crianças morrem de fome e verminose, que cidadãos morrem em corredores de hospitais ou em intermináveis filas para atendimento.
Estou cansada de ouvir que o Brasil é o país do futuro, enquanto espertalhões roubam-nos o presente.
Estou cansada da desvalorização do professor, do profissional da saúde, do policial, do motorista de ônibus, do coletor do lixo, da caixa do supermercado.
Estou cansada da supervalorização do vereador, do deputado, do prefeito, do governador e do presidente!
Estou cansada da inversão dos valores num mundo em que, quem é eleito, torna-se mais importante do que quem o elegeu.
Estou cansada dos deuses moldados pela conotação, pela distorção, pela ignorância e apatia, reflexo do cansaço coletivo.
Não quero regime socialista ou comunista, não quero Robin Hood! Quero as mudanças reais e necessárias, capazes de gerar igualdade de oportunidades, independentes das cotas. Quero a escola equipada, professores qualificados e valorizados, hospitais em condições de atender a todos, sem distinções.
Não quero bolsas nem vales, não vivo de esmolas. Quero o que me cabe de direito, conquistado com o meu salário, fruto do meu trabalho, o qual deve ser valorizado.
Estou cansada das discrepâncias salariais entre patrões e empregados, governantes e governados, eleitos e eleitores.
A dignidade humana passa, essencialmente, pelo trabalho digno e remuneração condizente, pela moradia, pelo acesso à escola, saúde e lazer. Bolsas, cotas e vales retiram essa dignidade, inibem o desenvolvimento, impedem o crescimento, sustam a democracia. Pois quem vive de esmolas, deve servir obedientemente a quem o mantém, sem direitos, de opinar, de gritar de reagir, na verdade, nem mesmo saberá mais agir!
Ah, não pode ser esta a receita. Não há de ser esse o remédio. É preciso distribuir o pão num primeiro momento, matar a fome momentânea para, logo em seguida, devolver-lhe a dignidade perdida, capacitando, valorizando, dando-lhe as condições necessárias ao crescimento, autonomia, sustentabilidade.
Estou cansada das amenidades que nada acrescentam, de dar murro em ponta de faca, nó em pingo d'água, de jogar palavras ao vento. Talvez também falte-me ação e reação.
Mas ainda talvez esteja tão cansada e indignada que esteja desistindo, esmorecendo, deixando ser, deixando estar. Talvez esteja tão cansada e indignada que jã não encontre forças para ir contra os sistemas e então, insensata fico estagnada, antenada ao mesmo tempo que apática, pronta para desistir. Triste constatação, triste fim, triste realidade.
Mas, estou cansada!
Maria Conceição de Aguiar