E quantas loucuras fazemos, dizemos...Em nome do amor e da ira, da dor, do calor do instante, da birra.
E ao enlouquecermos muitas vezes nos encontramos, sentimo-nos mais amiúde.
Então deixamos a loucura nos levar, a insanidade atracar, a cabeça rodar e o pensamento flutuar.
E nesses momentos perdemos a noção do perigo, do tempo, do espaço, do outro, do meu eu.
E como numa metamorfose mágica transcendemos o ápice da razão, da consciência, da questão.
E embarcamos na nossa loucura, por breves instantes, horas ou dias. E loucos amamos mais e também odiamos mais. E loucos fazemos mais e talvez melhor, ao menos diferente.
E loucos somos capazes de palavras, ações e comportamentos que em plena serenidade não seríamos.
Mas quem nunca enlouqueceu? Quem pode dizer-se inerte à loucura, à sandice da mente que vagueia procurando um novo estágio, novo sentido, novas razões.
Quem pode diagnosticar a loucura alheia sem antes conscientizar-se da própria utopia.
Enlouquecer é deixar fluir, mostrar-se sem medos, fazer algo inédito, realizar um desejo, viver uma fantasia. Aliás, há momentos em que é necessário fugir por algum tempo, deixar-se pirar e viajar na imaginação.
Só não dá para viver eternamente assim, constantemente insano, diariamente louco. Há de se ter um ponto de equilíbrio, saber a hora de voltar, de retroceder, de retornar à realidade.
Eis o ponto! Saber enlouquecer com a devida noção do retornar à razão. Caso assim não seja, torna-se tênue a linha divisória entre a sanidade e a insanidade total. Porque como diz o ditado "De médico e de louco todos temos um pouco", mas é preciso dosar, caso contrário o melhor é procurar ajuda profissional, tratamento.
Mas, deixando esse aspecto doentio da loucura, voltemos às insanidades momentâneas. Essas que são necessárias em determinados tempos. O porre na companhia dos amigos, a crise de ciúmes que faz rasgar fotos e jogar pertences pela janela e depois voltar atrás, pedir desculpas, mandar flores, fazer poemas, reconciliar-se. O mergulho no mar durante a madrugada, o banho de chuva, dançar como se ninguém estivesse olhando, pegar o carro sem destino e conhecer um lugar diferente, pessoas diferentes! Desabafar, reclamar, xingar, esbravejar e depois respirar fundo, abrir um largo sorriso, consertar, remendar, retomar o prumo da situação.
Ah que chata seria a vida se não enlouquecêssemos de vez em quando. Que entendiante é a vida de quem não se dá o direito de deixar-se enlouquecer ao menos uma vez.
Eu me dou esse direito! De sair do prumo, de agir impensadamente, de cometer sandices. E me dou o dever de rever, repensar, refazer e desfazer. E tenho consciência que minha insanidade não prejudica ninguém, talvez a mim mesma vez por outra. E minhas loucuras transformo em textos, em palavras compartilhadas e assim vou vivendo, sempre aprendendo, sempre em frente.
Deixar-se tomar pela loucura, ao menos uma vez na vida, é como despir-se de todo contraditório, de todo estigma, de toda monotonia cotidiana! Pensamentos meus!
Maria Conceição de Aguiar