Aos muitos Juízes que passaram pelas 111 Comarcas de Santa Catarina, pedimos que façam um esforço e lembrem-se de nós. Quantos de vocês vimos chegar tímidos, ainda muito jovens, Juízes Substitutos. Quantos vieram promovidos. Quanto vibramos quando passaram a ser Juízes de 2º Grau. Como comemoramos quando se tornaram Desembargadores. Da grande maioria de vocês, lembramo-nos com carinho. De outros, nem tanto. Para alguns fomos imprescindíveis, para outros, invisíveis. Mas pensem, tentem lembrar e se assim desejarem, ajudem-nos. Estamos pedindo socorro.
Eu sou aquela Agente de Serviços Gerais que preparava seu café, deixava no ponto a água para o mate, fazia o chá conforme seu gosto. Deixava sua sala impecável. Servia seus convidados, sempre sorrindo, de bom humor, pois gostava do meu trabalho. E sempre o realizei com esmero e zelo.
Eu sou aquela Agente de Portaria que fazia de tudo um pouco. Da secretaria à biblioteca, da recepção à correspondência, do almoxarifado à central de mandados, do xerox ao júri. Eu sou aquela que jamais dizia não, que estava onde precisavam do meu trabalho. E sempre o fiz, com dedicação, paciência e eficiência.
Eu sou aquela Técnica Judiciária Auxiliar que cumpria os despachos, certificava os prazos, dava celeridade aos processos, fazia cargas, atendia aos advogados e partes, tirava cópias, envelopava correspondências, juntava, expedia ofícios, mandados, cartas precatórias. Eu sou aquela que, dentro do cartório judicial, fazia de tudo, aprendia de tudo, aprimorando-me dia a dia para que meu trabalho facilitasse o seu. E sempre o realizei da melhor maneira possível, com competência, com esmero e qualidade.
Eu sou aquele Oficial de Justiça que cumpria mandados de todos os tipos. Que enfrentou cães bravos, partes exaltadas, que se esforçava para descobrir endereços, que nunca cansou de diligenciar até poder certificar. Eu sou aquele oficial que enfrentou tantos obstáculos para cumprir o determinado, que sofreu e chorou, que chegou a pensar em desistir, mas que perseverou e trabalhou até o fim.
Eu sou aquele Oficial da Infância que diariamente recolhia menores, tirava-os da situação de risco, encaminhava-os aos abrigos. Muitas vezes olhava para os meus filhos e pensava naqueles que não tinham um lar, pais, família. Muitas vezes meu trabalho foi penoso, triste, exaustivo. Muitas vezes cheguei a pensar em não cumprir. mas minha responsabilidade e meu compromisso sempre falaram mais alto. Eu cumpria exatamente o que me era determinado.
Eu sou aquela escrivã judiciária que cuidava do seu cartório. Chegava de manhã cedo e saía no final da noite. Ensinava o trabalho aos que chegavam. Moldava-me aos novos juízes que assumiam a vara. Relocalizava os processos várias vezes por ano, visando a celeridade cartorária. Eu era sua intermediária entre o gabinete e o cartório. Era sua voz na vara e a voz dos servidores no gabinete.
Eu sou aquele TSI que trabalhava de segunda a segunda para que os computadores estivessem sempre funcionando corretamente. Instalava impressoras, programas, suportes. Quantas vezes salvei sua audiência, quase perdida por um clique errado, uma queda de energia, uma pane na máquina.
Eu sou aquele secretário que estava lá, discretamente na secretaria do Fórum, dando todo o suporte administrativo necessário. Muitas providências a tomar, muitos relatórios a fazer, muitos servidores a atender. mas eu sempre estava lá. E me adaptava ao novo Diretor do Foro. E seguia suas instruções. E por anos fui o elo de ligação entre o interno e o externo das Comarcas.
Eu sou aquela servidora que começou lá ainda estagiando, fez concurso, efetivou-se. Passei a maior parte da minha vida dentro do fórum. Cheguei a receber 1 salário mínimo por mês, mas também cheguei a receber 10 salários mínimos por mês. Trabalhei em dois turnos, em turno único, em horário especial. Trabalhei, muitas vezes doente, pois tinha comprometimento. Meus filhos foram criados por outros, passaram a infância em escola de período integral para que eu pudesse me dedicar plenamente ao judiciário.Eu sou aquela servidora que trabalhou ininterruptamente por mais de 30 anos, cumprindo fielmente com as suas obrigações.
Eu sou aquele servidor que passou por varias varas, pelo gabinete, que mudou de comarca. Eu sou aquele que queria aprender sempre mais. Que estudou, galgou novos degraus dentro do Judiciário, por competência e determinação. Muitas vezes deixei de lado a minha família, fui pai um tanto ausente, marido meio displicente. Porque trabalhava, estudava, lia muito, aperfeiçoava-me. Mas nunca esmoreci. Fiz o que quis!
E hoje senhores Juízes e Desembargadores, estamos aposentados! E esquecidos. Toda essa contribuição que demos ao Poder Judiciário de Santa Catarina, parece que passou despercebida. Estamos sozinhos. Aposentamo-nos e pensamos: Agora chegou a minha vez de curtir a família, viajar, realizar planos pessoais por muito adiados. Mas senhores, ao virmos nosso primeiro contracheque percebemos que não é bem assim. Perdemos grande parte dos nossos vencimentos. perdemos inclusive o auxílio alimentação que era um complemento da nossa renda mensal. Estamos sendo ignorados, abandonados a própria sorte. Nós, que tanto nos dedicamos, que tantos serviços prestamos, agora que já não produzimos, somos descartados completamente, literalmente. Portanto senhores, reforçamos o pedido de que refresquem sua memória, lembre-se de que já fomos importantes para a realização do seu trabalho e olhem para nós com carinho e atenção, ou ao menos com a consideração que nos é devida. Nós contamos com os senhores. Queremos e merecemos envelhecer com mais dignidade, com uma aposentadoria digna, que nos proporcione, no mínimo, a satisfação das nossas necessidades básicas. Muito obrigado.
Aposentados do poder Judiciário de Santa Catarina