sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

QUARESMA

E neste tempo de Quaresma, em que nos preparamos para relembrar a Morte e Ressurreição de Cristo, ficamos mais sensíveis, mais preocupados com os outros e com nós mesmos.
E neste ano a Campanha da Fraternidade fala sobre Fraternidade, Igreja e Sociedade: Eu vim para servir!
Então me ponho a pensar sobre o assunto. Tão fácil servir a quem nos ama ou a quem amamos. Os filhos, a família, os amigos. E o resto do mundo?
E as milhares de pessoas que padecem em leitos de hospitais, os idosos desprezados em asilos sem estrutura, os viciados perambulando pelas ruas, os desabrigados, as famílias desestruturadas?
Tenho profunda admiração por quem tira um pouco do seu tempo para dedicar-se a essa gente, levando uma palavra de conforto, um gesto de carinho, uma sopa quente, um pedaço de pão, um pouco de amor. Eu não faço nada disso.
E pensando mais profundamente percebo que estou enclausurada na minha pequenês, olhando apenas para o meu umbigo, vivendo no meu mundinho sem grandes problemas. Tenho trabalho, casa, carro, comida. Tenho família, amo e sou amada. 
Mas, eu vim para servir! Então preciso olhar mais atentamente para o que me cerca, para o que eu não vejo, para os que me são invisíveis.
E nesta Quaresma firmo o propósito de procurar servir de algum modo. Fazer um trabalho voluntário, participar de algum grupo, dispor do tempo livre que tenho para ajudar.
E vou fazer! Vou sair de vez em quando do meu conforto, colocar-me no lugar do outro para então poder de fato servir!
A vida passa tão rápido. O tempo não para e não espera. Infelizmente há tanta desigualdade. E neste momento, enquanto reflito e escrevo, há pessoas precisando de ajuda e outras tantas ajudando. Então também quero participar, como meio de agradecer a Deus pelo que tenho, por ser quem sou, como maneira de mais tarde olhar para trás e me orgulhar por ter feito algo, por ter ajudado, por ter servido.
E não falo do orgulho bobo da hipocrisia, falo do orgulho interno, da paz de espírito, da magnitude de compartilhar.
Eu vim para servir! Eu quero ser instrumento, eu me proponho a me doar mais, ajudar pelo prazer de fazer a minha parte. 
E neste tempo de Quaresma ergo as mãos para o céu, agradeço a Deus por tudo e peço iluminação do Espírito Santo para que tenha a capacidade de saber servir! Que assim seja!

QUEM AVISA...

Sou observadora dos comportamentos, dos gestos e expressões, das falas e dos silêncios. Sou ouvinte atenta e mesmo calada, parecendo distraída, estou sempre antenada.
Mas também sou verdadeira, do tipo que fala mais que o necessário, tentando aconselhar, ajudar, despertar, enfim, vivo dando toques.
Na verdade sou metida, porque na maioria das vezes as pessoas não querem ouvir o que tenho a dizer.
Mas, quando ouvem, geralmente se dão bem. Entretanto, quando desprezam esta minha capacidade de percepção real do que está acontecendo, acabam se dando mal.
Incluindo a mim, que quando não dou ouvidos ao meu sexto sentido aguçado, a minha intuição, acabo me arrependendo.
E nestas horas dá vontade de dizer: Pois é, eu te avisei e quem avisa amigo é!
Porque é exatamente assim que me sinto, com vontade de alertar, de dar uma sacudida no outro, com a intenção de ajudar mesmo. Mas nem todos querem ser ajudados, nem todos querem ouvir o que penso, nem todos reconhecem que estão deitados em berço esplêndido enquanto a caravana passa.
Então quem fica desconfortável sou eu, que pareço estar dando pitaco sem ter sido chamada!
Não sou a dona da verdade, não tenho nem quero ter sempre razão. Sou apenas uma pessoa que observa atentamente tudo o que acontece e tira conclusões e tenta compartilhar suas impressões.
Mas, pensando bem, é melhor deixar prá lá, deixar rolar.
Decidi que a partir de agora vou me importar menos, falar menos sobre o que acho certo ou errado, opinar menos, ditar menos regras.
Porque cada um sabe de si, carrega consigo suas certezas e incertezas, tem que ser livre para semear e cultivar o que quiser e maduro para colher exatamente o que plantou.
Inclusive eu! Principalmente eu!
Portanto vamos combinar. Eu cuido de mim, você cuida de si. Caso queira minha opinião peça e eu darei. Mas pense bem antes, porque não sou falsa nem hipócrita, talvez não fale o que você quer ouvir. Então, se não estiver pronto para a resposta, não faça a pergunta!
E que eu consiga levar adiante meu propósito de me importar menos! Será melhor assim!!!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

DEPOIS

E depois a luz apaga, o café esfria, o leite azeda, a casa vazia.
E depois os sonhos esquecidos, as fotos guardadas, as roupas desbotadas.
E depois a comida estraga, o carro para, a porta fecha.
E depois o corpo envelhece, o andar enrijece, a fala estremece.
E depois o amor se vai, a paixão termina, o romance expira.
E depois a flor murcha, a planta seca, o rio vira córrego.
E depois os passos lentos, a memória traiçoeira, nas mãos, a tremedeira.
E depois os dias longos, as noites de insônia, o arrastar da vida.
E depois as algemas invisíveis, as amarras indissolúveis, a morbidez da espera.

E mais tarde, depois do depois, a ruptura definitiva.
A vida esvaída, a estrada sem volta, a trilha não seguida.
A solidão do partir, a tristeza do deixar ir.
A palidez da face serena, mãos geladas estendidas.
A saudade que vai acalmando, as lembranças que vão adormecendo.
A dor que vai amenizando, o amor que vai ficando.

E então, depois do depois do depois, o esquecimento.
Já não há flores nem velas.
Já não há preces nem rimas.
Já não não há choros nem lástimas.
Já não haverá vida!

IMPOTÊNCIA

Quem dera fosse capaz de curar suas dores como outrora, com beijinhos, mertiolate e curativo. 
Quem dera pudesse lhes aconchegar em meus braços e dizer: "Não se preocupem, tudo vai dar certo, eu estou aqui!"
Quem me dera livrá-los de todos os males, de todos os perigos, de todas as armadilhas da vida, do dia a dia, dos percalços do caminho.
Quisera acariciá-los, tê-los sempre por perto para o beijo de boa noite, o bom dia corrido, a ajuda nas tarefas escolares, os brinquedos espalhados.
Quem dera eu soubesse demonstrar como é grande, infinito e incondicional o meu amor por vocês.
Mas o tempo passa, e passa rápido demais. Crescem, seguem suas vidas e me sinto impotente.
Incapaz de protegê-los, de curar seus joelhos ralados, sus dedos esfolados, sua tão perfeita imperfeição.
E os outros, os que de vocês vieram. Também os sinto meus e quero-os por perto.
Este amor é ainda maior e mais profundo, intenso, imenso!
E sabê-los em momentos difíceis torna-me ainda mais impotente.
Tanto quero, tanto sonho, tanto desejo, pouco faço, pouco consigo, pouco resolvo.
Mas é a lei da vida! Tudo muda, tudo passa. 
Mas quero que saibam que seus dissabores me afetam, suas tristezas são minhas tristezas, suas alegrias são minhas alegrias, suas vitórias eu comemoro, vibro e choro porque sei o quanto lutam, o quanto se esforçam, o quanto de bondade cultivam.
Mas não gosto quando os vejo subjugados, submissos ou derrotados. Não gosto de senti-los desanimados, perdidos, sem rumo.
Porque a felicidade de vocês é a minha felicidade e o seu amor é o alimento que me mantém viva e ativa, pronta para o que der e vier.
E saibam que estarei sempre aqui, ou ai. Basta vir ou chamar. Jamais me furtarei. Vocês estão sempre em primeiro lugar e quem dera possa acolhê-los sempre e sempre e ainda além.
Perdoem se não faço mais. Perdoem pela impotência. Perdoem se nem sempre entendo, se nem sempre aceito, se nem sempre estou disposta a assoprar os arranhões cotidianos. Amo vocês!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

(IN)DECISÃO

Casar ou comprar uma bicicleta, carro sedan ou hatch, casa ou apartamento, um ou dois filhos, namoro ou amizade.....
Ter ou não filhos, assinar os papeis ou viver juntos, dormir ou acordar, sair ou chegar, ir ou ficar.....
Mudar de cidade, de casa, de emprego. Cursar a universidade ou tornar-se técnico, ganhar dinheiro ou fazer o que gosta, gastar ou economizar......
Viver ou sobreviver, sorrir ou chorar, lamentar ou superar, esperar ou buscar, salvar ou ignorar......
Viver ou morrer!
Quantas decisões precisamos tomar diariamente e ao longo dos anos. Quão indecisos podemos ficar. E na hora do vamos ver pensamos, refletimos, analisamos, ponderamos. E se ainda não chegamos a uma decisão, pedimos conselhos, ouvimos opiniões, ou, por vezes, deixamos nos levar e nos guiar pelo acaso e que seja o que tiver que ser.
Difícil escolher, decidir, decifrar. Difícil entender as escolhas alheias, suas decisões, seus enigmas. Difícil explicar as nossas decisões, nossas mudanças, nossas ações.
E quando se trata de escolher entre matar ou deixar viver? Aborto, eutanásia, assuntos que estão sempre no contexto das ideias, das conversas, dos debates. E se for comigo? E se for com você? E se fosse conosco o que faríamos, saberíamos decidir?
E depois da decisão tomada e aplicada não há como voltar atrás. O que está feito está feito, pronto e acabado. Será? Depende do momento e das circunstâncias em que decidimos. Pode ser que haja alívio, sensação de bem estar em ter feito a coisa certa. Ou poderá haver a culpa, arrependimento, sofrimento. Matar ou deixar viver?
Viver ou morrer? Continuar vivo ou dar fim à própria vida? Parece e tão óbvio, ninguém que morrer. Mas diariamente pessoas cometem suicídio, tiram de si o direito de continuar vivendo, roubam dos seus o direito da convivência. Partem feridos, machucados, culpados. E os que ficam choram, procuram respostas, explicações, razões, sentem-se culpados. Mas, uma vez feito não há como reverter, não há mais o que fazer.
E os que morrem lentamente por falta de amor, de cuidados, de carinho. Morrem pelo descaso, pelos vícios, pelas fraquezas, pela depressão, pelas angústias contidas, pelas mágoas vividas, pelo câncer generalizado. Morrem devagar, aos poucos. Talvez assim o queiram, talvez não. Mas passam desapercebidos, enquanto vamos lutando no meio da multidão pelo nosso dia a dia, pelo ganha pão, pela companhia solitária de nós mesmos, de quem nos cerca, pelas decisões e indecisões corriqueiras.
Matar ou deixar viver? Morrer ou viver? Acelerar o processo ou permitir que todos os ciclos aconteçam? A escolha é nossa, minha, sua, de cada um. Por hoje, por ora, eu escolho viver e deixar viver!


Maria Conceição de Aguiar 

QUANDO SETEMBRO CHEGAR....

Quando setembro chegar trará a primavera, com suas cores e aromas tão variados.
Quando setembro chegar seremos invadidos pelo novo tempo, novo astral, novo céu.
Porque setembro é especial, sempre!
Então quando setembro chegar muita coisa vai mudar, tudo pode acontecer.
E não adianta querer antecipar, prever, imaginar. 
E não convém especular, esbravejar, torturar-se.
Quando setembro chegar as coisas mudam de lugar e a vida volta ao seu lugar. Ou vice e versa. 
E até lá ainda há muita vida para viver, muita coisa para fazer, muitos sonhos a conquistar, muito trabalho a realizar.
E até lá muita coisa vai acontecer, remexer, revirar, mudar.
E de repente tudo faz sentido. E de repente palavras ditas e ouvidas passam a fazer todo sentido.
E de repente atitudes, ações, reações, freios começam a fazer sentido. Finalmente entendido. 
Portanto, quando setembro chegar nada estará no mesmo lugar, nada mais será como hoje. E o sexto sentido aguçado prepara-se vagarosamente, sem ansiedade, para quando setembro chegar!