quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Era uma vez



Era uma vez uma jovem muito bonita. Tinha no rosto traços perfeitos, boca e nariz simétricos, olhos claros e brilhantes, cheios de vida. Um corpo esguio, embora de estatura mediana. A cabeça fervilhava de sonhos e fantasias, comuns a todas as moças. Queria casar, ter filhos, uma família.
Foi quando conheceu um comerciante que por lá apareceu. Alguns anos mais velho, o homem apaixonou-se imediatamente por aquela linda moça. Notou-lhe a singeleza e passou a cortejá-la. Em pouco tempo estavam casados. A bela, feliz da vida, despediu-se do pai, da irmã e do irmão, foi ao cemitério pedir as bênçãos da mãe e foi embora da sua cidade, acompanhando seu marido, rumo a uma vida nova, totalmente desconhecida para ela, estranha, mas estava tão feliz!

Os primeiros anos foram difíceis, morava com a sogra e as cunhadas solteironas. Logo veio o primeiro filho, o segundo e o terceiro, até totalizarem seis. Havia muito o que fazer. O marido tinha um comércio, havia horta, chácara, animais, filharada, obras da casa própria, mas havia tanto amor, união. É, ela amava aquela vida.
E os anos foram passando, a sogra faleceu, as cunhadas foram embora, ela foi trabalhar fora. E ensinava aos filhos desde pequenos que cada um era responsável pelo outro. Então, eles tomavam conta uns dos outros na sua ausência e ela, já não tão jovem, esmerava-se em cuidar de todos e de tudo. Continuava a ser dona de casa, mãe, esposa e profissional. E ainda tinha a chácara, a horta, os animais...

Aprendi a admirá-la, jamais a ouvi dizer que estava com preguiça! Ela sempre podia, sempre dava um jeito. Eram seis filhos, quatro homens e duas mulheres, todos muito dependentes, todos muito frágeis. Herdaram do pai essa fragilidade psicológica, a dificuldade em lidar com problemas, em resolver situações. Então aquela bela jovem desde cedo teve que tomar as rédeas de tudo e assim foi por todo o sempre.

O tempo passou, os filhos cresceram, seguiram seus rumos, casaram, vieram os netos. Seu companheiro foi chamado por Deus. Mas ela continuou firme, ainda forte, visitando a todos, aconselhando, comemorando, acompanhando, vivendo. Viúva, optou em morar com uma filha, também viúva. E os anos continuaram passando, porque o tempo não para e não espera por ninguém!

Hoje, aquela que um dia foi uma jovem tão bela e atraente, tão cheia de vida, está com 81 anos. Poderia ainda estar transbordando vida, mas ao contrário, está deprimida, emagrecendo, definhando a olhos vistos. E querem saber porque? Por solidão! É isto, sente-se só, sente falta dos filhos e netos. Continua morando com a filha, que já não é mais viúva, casou de novo, mas que se esmera ao máximo em dedicação à mãe. Além dela, duas netas, que estão sempre lá, atentas, cuidadosas, preocupadas, zelosas.

Mas são seis filhos e treze netos! Cadê os outros? Ela sente falta, chora, sente-se abandonada, tem medo da morte, tem medo de estar chegando ao fim da vida e gostaria que estes últimos anos fossem rodeados de amor, atenção, afeto, carinho.

Eu consigo entender o que está sentindo. Porque fecho os olhos e lembro das suas gargalhadas italianas quando a casa estava cheia e ela alegre cozinhava para todos ou contava aquelas longas histórias. Lembro quando viajava horas de ônibus para socorrer um filho ou simplesmente visitá-lo. Lembro do seu sorriso e agora não a reconheço.

E aproveito para dizer que esta jovem e bela dama deixou marcas profundas em mim. Ensinou-me muita coisa, sou-lhe grata. Gosto dela pra caramba e, embora tenhamos nossas diferenças sei que ela gosta de mim também. Temos respeito e admiração mútua.

E esta história não termina aqui, talvez nem termine logo, ainda pode ser revertida, afinal são seis filhos, treze netos e seis bisnetos! E ela só precisa de AMOR!

MARIA CONCEIÇÃO DE AGUIAR
18/1/2012

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