terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O PATRIARCA

                   Chamava-se Paulino Horácio, nome forte para um homem forte. Meio bonachão, brincalhão, gostava de uma boa vida.
                    Contam que não era muito chegado ao trabalho, gostava mesmo era de um jogo de dominó, de cartas e de mulheres.
                    Casou-e com uma moça simples do interior, a qual jamais ousou desafiá-lo. Nela fez-lhe muitos filhos, onze no total, seis vingaram. Os outros Deus levou ainda pequenos ou nem nasceram.
                    Ele lembrava com saudades de uma em especial, Erotildes. Falecera aos dois anos de idade. "Linda, com aqueles olhos tão azuis da cor do céu, os cabelos pareciam trigo, esperta que só, morreu assim, do nada", lamentava.
                    Ela lembrava das vezes que pariu praticamente sozinha e principalmente de certa vez em que ele foi buscar a parteira mas os amigos chamaram para um jogo de dominó e esqueceu do compromisso, quando chegou a criança já tinha nascido.
                    Arranjaram-lhe um emprego público federal, naqueles tempos não precisava concurso público. Foi trabalhar na construção da BR 101, então 'Estrada Federal'. Foi a salvação da família. Construíram uma casa, melhoraram de vida.A mulher também foi trabalhar fora de casa, foi ser professora primária.
                    Então o Seu Paulino comprou a primeira televisão do lugar. Uma novidade que atraiu a atenção de todos. Era um luxo. Toda noite a casa enchia para ver a novela da TV Tupi. A família sentava nas poltronas, os brancos nas cadeiras e os negros no chão. Tudo certo, ninguém reclamava, ninguém estranhava, era o costume. Quando dava a hora ele levantava, desligava o aparelho e todos sabiam que era hora de ir para suas casas.
                    Na copa de 70 a televisão foi para a janela da sala e todos podiam assistir aos jogos confortavelmente sentados nos trilhos do trem ou nas pedras da beira da estrada. eram dias de festa!
                    Este era o Seu paulino Horácio. Com os amigos era brincalhão, bom, amigo. Em casa, austero, rígido, queria respeito, exigia moralidade.Os filhos cresceram. Homens pro trabalho e mulheres pro casamento. E obedeceram.
                    Era um homem grande, forte, bonito, de olhos claros, falante, instigante!
                    Teve problemas cardíacos, superou, teve câncer de pulmão que o levou. Morreu cedo, não queria morrer. Ainda tinha muito que viver. Estava numa fase boa, finalmente conquistara independência financeira, conforto, podia viajar, passear, comprar. Mas foi embora e deixou uma viúva totalmente perdida pois sempre fora dependente dele. Então passou a ser dependente das filhas, não sabia fazer nada sozinha, ele nunca a deixou aprender.
                    Ele era o patriarca, com seus defeitos e qualidades mantinha sua família unida em torno de si, após sua morte as coisas começaram a mudar e mudaram muito.
                    Bem, os tempos também mudaram, as pessoas mudaram, as outras famílias mudaram, mas o velho Paulino deve ter se revirado no túmulo algumas vezes! 

      Que Deus o tenha e que descanse em paz! AMÉM

MARIA CONCEIÇÃO DE AGUIAR
24/1/2012

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