quarta-feira, 30 de julho de 2014

DEPOIS DO CHAMPIX

O tratamento dura três meses. Drástico, com tantos efeitos colaterais que dá até vontade de desistir. Mas, fiz direitinho, do início ao fim. E consegui ficar sem fumar por um ano e meio!
E depois? E agora?
Durante o tratamento, de fato não sentia vontade de fumar. Apesar de ficar meio lesada, em todos os sentidos, convivia bem com a abstinência. Findo o uso do medicamento, a vontade voltou com força total, então apelei para a força de vontade, a determinação em não voltar, não sucumbir, não recair.
E assim foi durante um tempo.
Até que numa linda noite de verão, num encontro com amigos ao ar livre, cerveja gelada e papo bom, cheiro de cigarro, tentação, vontade, fraqueza.
Então sucumbi! Fiz o que não poderia ter feito, peguei um de uma amiga e fumei. Achei que fosse ficar tonta, passar mal, vomitar, sei lá, depois de tanto tempo. Mas qual nada. Foi como se nunca tivesse parado.
E no dia seguinte mais um, até que no terceiro dia estava comprando e fumando novamente.
No início me senti culpada, derrotada pelo vício, chateada por ter fraquejado.
Depois com raiva de mim, do CHAMPIX enganoso, do prazer que o vício me proporcionava.
E tempos depois decidi assumir. Reconheço que assim como um alcoolista em recuperação não pode dar o primeiro gole, uma tabagista em recuperação não poderia dar a primeira tragada.
Pois é, eu recaí. E há um ano voltei a fumar!
Não estou comemorando este aniversário, estou apenas recordando, desabafando e admitindo minha fraqueza.
Não sei se terei ânimo para fazer outros tratamentos, porque esse que fiz era para ser eficaz, inovador, para sempre. E não foi. Talvez algo mais drástico como internação, nada menos. 
E eis que me gabo inteligente, leitora e escrevedora, instruída, bem informada mas, ainda assim, deixo-me dominar por algo que me faz mal, que me destrói, envelhece, deixa minha pele e meu cabelo feios, minha roupa cheirando mal.
E me deixo dominar, sem mais relutar, sem mais questionar. Estou preguiçosa demais para duelar, para travar batalhas que sei serão infrutíferas enquanto eu não estiver plenamente consciente da real necessidade de dar um basta. e, confesso, não estou! Ainda não!

Maria conceição de Aguiar
30/7/2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

EQUIPE

O que é uma equipe? Acho que é muito mais que um grupo de pessoas reunidas em uma sala, uma casa, um escritório.
Na verdade, considero bastante distinta a definição de grupo e de equipe. Para mim, grupos podem se formar para realizar um trabalho, executar tarefas, ouvir palestras, debater ideias... Já equipes vão se formando aos poucos, através dos grupos. Os membros de uma equipe forma um todo, nem sempre uníssono, nem sempre cordato, mas abertos ao diálogo, receptivos às mudanças, as ideias, as trocas e divergências de opiniões.
E quem os conduz? Normalmente o grupo tem um chefe, o qual distribui tarefas individuais e cobra resultados, desempenho, produtividade.
Já a equipe possui um líder que se destaca por 'pegar junto', assumindo com sua turma as tarefas, os erros e acertos.
O chefe é imposto, o líder, escolhido. Ambos podem estar na mesma pessoa, dependendo da postura com que encara as rotinas do dia a dia, com que trata sua equipe ou grupo, como delega, como traça as metas e objetivos, como recebe e emite as críticas e elogios, como se sai em situações de conflito.
Na equipe não há individualismos. Somos nós! Não há vencedores e vencidos, há companheiros em busca dos mesmos objetivos.
E apesar dos avanços tecnológicos, das várias ferramentas que facilitam a comunicação e a realização das tarefas cotidianas, apesar de estarmos na era virtual, digital, ainda há mentes completamente analógicas. Pessoas que ainda pensam que o mundo gira aos seu redor, que sãoé insubstituíveis, ou que, ao contrário, com medo de serem substituídos, assumem a postura caótica do 'chefe'!
Mas basta olharmos ao redor, lermos os noticiários, analisarmos os resultados. Os trabalhos realizados em equipe atingem patamares memoráveis. 
Mas isso não acontece da noite para o dia. Uma equipe vai sendo formada aos poucos, com incentivos, com objetivos claros, com visão! Trabalham em sintonia, agem com parceria.
Pois é, verdadeiramente acredito que, seja na vida privada, escolar ou profissional, ou somos equipe ou não seremos nada.
Então, deixemos de lado a visão simplista do eu e passemos a enxergar o nós. Deixemos de apontar o dedo para os erros alheios e passemos a ajudar a consertá-los. Deixemos de vangloriar-nos pelos acertos individuais e passemos a compartilhá-los com nossa equipe, porque, se analisarmos detidamente, veremos que nada fazemos sozinhos. Aliás, sozinhos somos quase impotentes, pois não dotamos todos os saberes, não dominamos todas as etapas, portanto, não conseguimos ir do início ao fim. Entretanto, quando a equipe está engajada, cada qual dá o seu melhor visando concluir o todo em harmonia e sintonia.
Pois é, a vitória é sempre resultado do trabalho em equipe e geralmente coordenada por um líder que sabe conduzi-la como o maestro de uma orquestra, sem gritos, sem exageros, sem devaneios, apenas com pequenos gestos, olhares, palavras! 
Portanto, reafirmo, em todos os sentidos e em todos os aspectos, ou somos uma equipe pu não seremos nada!

Maria Conceição de Aguiar


quinta-feira, 24 de julho de 2014

ENTRE MULHERES

Nós evoluímos, conquistamos o mundo. Provamos que somos capazes de realizar quaisquer tarefas, encarar os mais duros desafios, enfrentando obstáculos e vencendo-os sem perder o charme, a elegância e a essência feminina.
Nós aguentamos firmes as dores do parto, da depilação, da unha encravada. Submetemo-nos a procedimentos estéticos torturantes, apertamos nossos pés em saltos desconfortáveis, tudo em nome da vaidade, beleza, essência feminina.
Nós sabemos ser mães, educar, criar, formar nossos filhos. Sabemos ser esposas, namoradas, amantes, companheiras de todas as horas. 
Somos criativas, normalmente bem humoradas, fazemos a diferença na sociedade, sem sombra de dúvida.
Pois é, nós mostramos a que viemos!
Entretanto, por mais que avancemos, continuamos a duelar entre nós. Ao invés de unirmos forças, na maioria das vezes, encaramos as outras mulheres como rivais, ameaça a nossa soberania. Então entramos numa competição meio irracional. E não votamos em outras mulheres, não queremos ser chefiadas por mulheres, preferimos liderar equipes masculinas.
Escolhemos umas poucas amigas e, de resto, rotulamos, taxamos, encaramos como se inimigas fossem.
E eis que começamos a travar uma guerra desleal, atacando e ativando mecanismos de defesa cada vez que nos sentimos ameaçadas pela colega, pela professora do filho, pela amiga do namorado, pela vendedora da loja, por outra mulher.
Claro, não é regra. Há mulheres que conseguiram superar este complexo de inferioridade, este trauma de que mulher não confia em mulher, outras, lutam diariamente para superá-los.
Mas ainda há muito que melhorar, progredir, avançar.
Somos mulheres e, assim como os homens, temos qualidades e defeitos, dons e competências distintas. Não há sentido em travarmos batalhas diárias para marcar território, tentando provar que somos melhores que as outras, usando de artimanhas nem sempre corretas para que sejamos notadas, valorizadas, respeitadas. Também não podemos assumir o papel de coitadas, vítimas da sociedade machista que nos impôs a condição de competir a qualquer preço.
Somos mulheres e somos muitas em uma e uma em muitas. Podemos tudo, mas sabemos ponderar o que nos convém. E cabe a nós decidirmos viver em harmonia, unindo forças, somando e multiplicando, compartilhando os resultados positivos das atitudes positivas. Ou, cair na mesmice do achismo, das rivalidades vãs e das perdas que essa escolha significa. A decisão é diária, constante, carece de amadurecimento e discernimento, mas depende de nós mulheres!

Maria Conceição de Aguiar

quarta-feira, 2 de julho de 2014

CÁ ENTRE NÓS

De vez em quando fico pensando sobre as mil e uma utilidades que temos nesta vida. Somos mães, donas de casa, esposas, namoradas, estudantes, profissionais, consumidoras, enfim, somo úteis.
Cada dia é um verdadeiro desafio para que consigamos desempenhar todos os papeis a contento, sem deixar nada nem ninguém para trás. Casa arrumada, tarefa escolar supervisionada, jantar pronto, trabalho concluído, responder os e-mails, retornar os telefonemas, lembrar dos aniversariantes. Ufa, cansa só de pensar.
Mas, cá entre nós, o que acontece quando nossa utilidade diminui? Quem fica ao nosso lado? Quem ajuda, apoia, entende, colabora? Podemos nos tornar inúteis apenas na velhice, quando começamos a esquecer nomes e datas, perdendo o vígor para desenvolver as tarefas cotidianas. Quem ficará conosco? Não é fácil cuidar de velhos inúteis!
Mas podemos ficar inúteis bem antes. Acometidos de uma doença grave, estéreis, deprimidos, sem dinheiro, endividados. E então quem nos aguentará sem nenhuma utilidade?
Olha, difícil aceitar que não somos mais necessários, podemos ser descartados a qualquer momento, basta que não tenhamos utilidade.
Vejo filhos que deixam seus pais em casas de repouso, porque tornaram-se inúteis, não podem mais ajudar nos trabalhos domésticos, cuidar das crianças ou produzir qualquer coisa. Ao contrário, tornaram-se dependentes, frágeis, debilitados. Mas não dá para desacelerar, melhor passar o compromisso para outros.
Conheço mulheres abandonadas pelo marido porque entraram na menopausa e sofreram com as suas consequências. 
Sei de pessoas que são desprezadas por sofrerem transtornos como a depressão, a bipolaridade, entre outros.
Vejo colegas doentes sofrerem discriminação por que estão momentaneamente inúteis. Como se a licença para tratamento de saúde fosse uma afronta e não um direito. Como podem ter paz de espírito para tratar a saúde sabendo que seus superiores torcem para que logo se aposentem e que a vaga possa ser ocupada por alguém saudável, útil!
E há os que perdem o emprego, ficam sem dinheiro, então já não têm a quem recorrer. Os amigos desaparecem, os credores surgem de todos os lados.
Complicado ser taxado de inútil. Quem sobra? Quem estende a mão? Quem consegue se colocar no lugar do outro e pensar que poderia ser consigo aquela situação, aquele problema.
Muitas vezes já cometi o erro de perder a paciência, julgar, condenar. Mas, aos poucos, tenho aprendido a me colocar no lugar do outro, tentando entender o que está passando e enxergar o que está precisando. Talvez eu nem possa ajudar, mas se não julgar já é um bom começo. Tenho procurado, cada vez mais, tratar os demais como gosto que me tratem, independente da condição, da situação, da sua utilidade! 
Mas há um consolo. Ao nos tornarmos desnecessários saberemos o quanto e por quem somos amados. Entenderemos para quem temos valor. Porque nessa hora sobrarão apenas os que nos querem bem, verdadeiramente. Portanto, não podemos desanimar jamais. Mesmo incapacitados, sempre seremos úteis para alguém, sempre haverá uma mão estendida, renovando a esperança! 
Mas, cá entre nós, nesse mundo competitivo, dá um tantinho de medo de sermos rotulados de inúteis!

Maria conceição de Aguiar

NOVAS VOVÓS

Minha amiga tornou-se avó e está meio assustada com isso. Olha para o bebê e sente um amor imensurável, quase inexplicável. Parece seu! Um misto de sentimentos, quer protegê-lo, cuidá-lo, mimá-lo, mas a palavra avó não lhe soa bem.
Ao olhar-se no espelho vê-se bela e jovem, nada parecida com as avós das nossas histórias. Ao contemplar sua filha enxerga ainda uma menina. Mas a menina cresceu, tornou-se mulher, mãe. E minha amiga, avó!
Sei bem como se sente. Já experimentei essa sensação estranha do primeiro neto, dos primeiros meses, até acostumar-me à nova realidade, até aprender a desempenhar um novo papel social, até entender que a cira da minha filha era dela, meu neto, e eu, avó!
Sabe amiga, entendo perfeitamente o que sentes, como te sentes. Mas olhe, aos poucos vamos nos acostumando. Começamos a ocupar nosso real espaço na vida dessa criança, que também é nossa, de maneira diferente. É filha da nossa filha. É nossa descendência e o amor de avó é diferente do amor de mãe. Porque não temos que educar, apenas mimar, amar, aconchegar.
E com o passar do tempo ela vai crescendo e a maravilhosa sensação e ser avó torna-se mais evidente. Quando nos olha e abre um largo sorriso. Quando aprende a falar a palavra vovó. Quando abre os abraços e corre ao nosso encontro. Quando nos imita no jeito de andar, falar e vestir. Quando pede para brincar com nossos sapatos de salto alto, nossas maquiagens, nossos vestidos de festa. Quando mais tarde ligar e dizer: "Vó, preciso conversar contigo". Então desabafa, conta-nos suas mazelas que, para eles tão importantes, para nós coisas de criança, adolescentes. Mas os ouvimos, entendemos e conversamos com suas mães e pais.
Hoje tenho cinco netos, o mais velho já com treze anos, fala das suas coisas, desabafa, pede conselhos. E eu, limito-me a ouvi-lo e tentar ajudá-lo explicando sobre as dores do crescimento, as mudanças no corpo e na vida, na maneira de pensar e de ver o mundo. Deixando claro que seus pais querem o melhor para ele e que, portanto, deve sempre ouvi-los.
O mais novo fica feliz quando vou visitá-lo ou quando vem na minha casa. Aos quatro anos solicita minha atenção para ler para ele, brincar, jogar, levá-lo para passear. Adoro isso!
E as três meninas, ainda pequenas, filhas das minhas filhas, admiram meu batom vermelho, pedem para usá-lo. Brincam com meus saltos e me imitam. Gostam de estar comigo e eu adoro estar com elas. Com os cinco aprendi a desempenhar o papel de avó!
Portanto amiga, tenha calma. Não tenha pressa, não tenha medo. Você vai vê-la crescer e se desenvolver naturalmente. Vai estar ao lado dela sempre que precisar, sem sufocar, sem querer ser a mãe, vai aprender a ser a vovó! E tenho certeza de que cada vez que você a tem nos braços, sente um misto de medo e felicidade. Mas é normal, natural.
Deixe sua filha ser mãe e ocupe seu lugar de avó. Aos poucos o medo desaparece, passamos a distinguir com maior exatidão a diferença entre ser mãe e avó. E posso te afirmar que vale a pena. Vale muito a pena!
Que Deus abençoe tua família, que venham outros netos, e que tenha a certeza de que os laços que te unem a essa criança são eternos, fortes, inexplicáveis!

Maria Conceição de Aguiar