terça-feira, 5 de maio de 2015

DESABAFO

Iniciei minha vida profissional um pouco tarde, aos 30 anos. Fui professora, diretora de escola, jornalista, assessora de imprensa, repórter, coordenadora de jornalismo. Até que decidi prestar concurso para o Poder Judiciário de Santa Catarina. Aprovada, assumi dois anos depois e aqui estou há sete anos.
Nestes 20 anos de atuação profissional, conheci pessoas de todos os tipos, conquistei amigos, colecionei colegas, parceiros, chefes e líderes. Cativei e me deixei cativar. Para alguns provoquei antipatia ou eu não simpatizei. Mas sempre convivi bem com todos. Procuro sempre enxergar o lado bom das pessoas, para facilitar a convivência diária, afinal, no trabalho passamos a maior parte do dia, portanto precisamos conviver em harmonia.
Mas, neste 20 anos de vida laboral, nunca havia me sentido tão humilhada e desvalorizada como agora.
Desde que aderimos à greve, nós, servidores do Poder Judiciário Catarinense, temos sido covardemente injustiçados e maltratados por aqueles que representam a justiça. Quanta contradição!
Estou em greve sim e por tempo indeterminado. Estou exercendo um direito constitucional. Estou reivindicando um plano de cargos e salários, aumento real da renda básica, valorização.
E mereço! Assim como os cerca de sete mil servidores merecem. Trabalhamos sete horas por dia, ininterruptamente. Não temos pausa para lanche. Não temos direito a adicionais por hora extra e dificilmente conseguimos gozar férias, folgas e licenças. Somos uma equipe extremamente eficiente, atuante, compromissada com o resultado final. trabalhamos com afinco e determinação para que a justiça se faça.
Mas então que contrassenso! Meus pleitos não merecem respeito? Meu trabalho não merece ser valorizado? Acaso não sou digna deste Tribunal?
Já no primeiro dia de greve as ameaças tiveram início. Liminar determinando que fôssemos expulsos dos Fóruns e nos mantivéssemos a 200 metros de distância. Em seguida, novas proibições arbitrárias, e ameças descabidas.
Enquanto os representantes da categoria tentavam negociar, recebiam enxurradas de nãos. Em nova atitude sem nexo, encerraram as negociações e mandaram que voltássemos ao trabalho.
Mas não voltei! Continuei firme, convicta da razão que me assiste. E agora o golpe final: Desconto salarial.
Estou preocupada? Claro que sim. Sobrevivo do meu parco salário. Preocupa-me ainda mais os processos parados, a sociedade penalizada por uma política pautada em ameaças, desmandos, tentativas de desmobilizar o movimento grevista, de amedrontar a categoria.
Sinto-me humilhada. Tratada como lixo descartável pelos senhores da lei. 
Mas a eles dou minha resposta enfática: Não arredarei, não voltarei atrás, não vou desertar nem retroceder. Podem descontar meu salário, eu me viro, posso vender sanduíche e água mineral na praia. Podem me ameaçar com processos administrativos, saberei me defender, pois não estou fazendo nada ilegal. E se o objetivo for fazer com que eu me sinta tão incomodada a ponto de procurar outro trabalho, podem esquecer! Vou ficar! Continuarei fazendo parte do quadro funcional do Poder Judiciário, porque assim decidi, este foi o trabalho que escolhi.
E quando mais tarde olhar para trás, sentirei orgulho em ter participado deste momento histórico, da maior greve da categoria. E contarei esta história, e relembrarei, e saberei que tudo valeu  a pena.
Sim, apesar de todas as humilhações sofridas, do descaso com que tenho sido tratada, do desprezo aos pleitos apresentados, sei que ficarei até o final, por quanto tempo for necessário e que seremos vitoriosos porque não pedimos nada absurdo, tudo bastante coerente.
Então colegas servidores, neste texto simples e complexo, em que misturei a primeira e a terceira pessoa, quero conclamar a todos que não se deixem intimidar. Mas, caso apareça um pouco de medo, respire fundo, conte ate dez e pense: Estou fazendo história, estou lutando pelo presente mais ameno e pelo futuro digno, por mim, por você, por nós!
Não senhor presidente, eu não vou recuar! Nem vou deixar o PJSC. Ficarei em greve enquanto esta durar e depois me encherei de coragem para retornar ao trabalho com a mesma disposição de antes, mesmo tendo sofrido tamanha desconsideração!
Estou indignada e esta indignação me torna mais forte e mais certa do que devo fazer, do meu papel social aqui e agora. Não vou deixar que me tratem como objeto descartável, Vou em frente cada vez mais convicta e certa de que estou no caminho correto. E quero olhar meus filhos com orgulho de não tê-los ensinado uma coisa e feito outra. E quero olhar meus colegas, cada vez mais próximos pela luta comum, com a satisfação de que cumprimos com o nosso dever, fizemos a nossa parte e certamente os resultados positivos estão muito próximos.
Indignada, mas determinada! Greve até o fim da vida se preciso for! E fico feliz por pensar e agir assim, por ser intensa, por entrar com tudo neste movimento, por não esmorecer! E estou profundamente orgulhosa de mim e de todos que estão no movimento, atuantes, guerreiros, unidos!

Maria Conceição de Aguiar
5/5/2015

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