E as obras continuam e o jardineiro sem jardim continua por lá, sem tino nem rumo, para o nada a olhar.
Mas, observando bem, ele acostumou-se ao marasmo do nada para fazer.
Já não rega as poucas plantas que restaram em frente ao prédio. Já não retira as ervas daninhas que começam a subir pela escadaria principal. Entregou-se ao tédio, ou, ao ócio.
Como toda obra, essa também está atrasada e aparentemente ainda levará um bom tempo para ser concluída. Enquanto isso, o pouco ou quase nada que sobrou do que antes era um jardim está totalmente abandonado.
E o jardineiro a tudo observa calado. Cumpre um horário ilógico, sem fazer absolutamente nada.
E assim agindo vai deixando de ser admirado e passa a ser ignorado. Mesmo restando apenas um canteiro, alguns poucos vasos, as ervas daninhas em volta da escadaria, ele poderia demonstrar que se importa, que gosta do que faz, que quer manter o que resta.
Mas, ao contrário, como um moribundo que espera a hora da morte, o jardineiro sem jardim aguarda que a obra chegue na parte da frente do prédio, então cuidar para quê se logo será destruído, acabado ou renovado.
Talvez ele esteja certo, talvez não. Mas particularmente sua presença inútil começa a incomodar, pois já não mostra interesse, vontade, prazer.
Vejo-o diariamente sentado no banco ou na calçada, puxando assunto com quem passa, chega ou sai, sem nenhuma iniciativa, sem nenhum zelo, sem mais nada.
Pois é, um jardineiro sem jardim de fato torna-se inútil. Assim como uma blogueira sem textos, um médico sem pacientes, um advogado sem clientes, um escritor sem contos, um jornalista sem notícias. Enfim, quando já não há muito para fazer pode-se fazer o pouco que há, renovar, reciclar, redescobrir novas habilidades, redesenhar sua profissão.
Mas, talvez a este jardineiro falte ânimo, incentivo ou cobranças. Está solto, acostumou-se ao vazio da inutilidade, portanto, esta história continua e com certeza ainda termos novidades!
Estou amando a "Saga do Jardineiro Sem Jardim" e ansiosa prá ler "Jardineiro, o retorno". Começo a ler o texto e imaginar as cenas...muito bom!
ResponderExcluirLegal Fátima, vamos aguardar o desfecho
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