Por pouco tempo fui filha, quase nem lembro, mas as lembranças são intensas. Que paradoxo! Mas é isso, não lembro bem como é ser filha, ter pai e mãe, mas do pouco tempo que os tive guardo lembranças, boas e ruins, Na verdade, somente as boas, as lembranças ruins eu apaguei, deletei, esqueci!
Mas, de vez em quando da uma vontade de ser filha. De ouvir um conselho, uma chamada, um elogio. De ganhar um abraço, um colo, um aconchego. De abraçar, acarinhar, comprar um presente, preparar um almoço, visitar no fim de semana.
Quem me dera ter tido o privilégio de ver meus pais envelhecerem, de ver meu pai brincando com os netos, de vê-lo embranquecer os cabelos, enfraquecer a voz pela naturalidade da velhice e não pela doença precoce que o levou tão cedo.
Quem me dera ter tido quem me acompanhasse à maternidade, na primeira consulta ao ginecologista, nas dores da adolescência, da vida adulta,
Ser filha ou filho é desfrutar de um amor incondicional, do bem querer. Ter a referência da casa da mãe, da casa do pai ou da casa de ambos deve ser uma experiência indescritível quando já somos adultos. Pois lá sempre será o ponto de apoio, sempre haverá um lugar para o filho, um café quente ou uma água gelada, um abraço, laços!
Fui filha por tão pouco tempo!
Então por vezes sinto esta falta, este peso nos ombros, desde muito cedo, desde muito tempo. O peso de ter que decidir, agir e arcar com as consequências, como deve ser. Mas as vezes cansa!
Quisera ser filha e pedir pro pai ver o problema do ralo entupido, da parede descascada, do carro batido. Quisera ser filha e pedir pra mãe fazer um almoço, um bolo de chocolate, um doce. Quisera ser filha e dizer ao pai que preciso dele, que quero conversar, desabafar, aconselhar-me. Quisera ser filha!
Ah que vontade eu tinha de ser filha ainda. Mas queria ser filha querida, desejada, amada. Mas queria ser filha amorosa, dedicada, cuidadosa. Mas não sou, por pouco tempo fui.
Então sou mãe! E como mãe de quando em quando inverto tudo e viro filha. peço colo, conselhos, ajuda. Peço afagos, mimos, atenção. E dou carinho, amor, dedicação. E preparo o almoço de domingo, o bolo pro café, o pão caseiro. E levo pra passear e deixo que me levem. E como não sei como é ser filha exercito a honra de ser mãe.
E sou a mãe forte, corajosa, que ampara e acolhe, que está sempre de braços abertos, mas que também sabe repreender, chamar atenção, chamar à responsabilidade. Sou mãe e isso me basta, mesmo que, por vezes, bata esta vontade de ser filha, ser mãe completa minha existência.
Não tenho traumas nem neuroses por não ter sido filha, mas felicito aos que ainda têm seus pais por perto. Aproveitem, desfrutem do privilégio de ser filho ou filha!

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