Elas envelheceram! Que maravilhosa dádiva envelhecer. Conhecer netos, bisnetos, acompanhar o desenvolvimento tecnológico, o vai e vem da vida, a vinda e a ida das pessoas, o desenrolar dos acontecimentos. E melhor ainda envelhecer em família!
Ela envelheceu ao lado do seu companheiro, com quem conviveu por mais de 50 anos. Aos 91 ficou viúva. Mas não se deixou abater porque tem uma família enorme, amorosa, presente. E os filhos não a deixam só. E ela mantém a vaidade de outrora, cuida dos cabelos, unhas e roupas. Cuida do espírito mantendo-se alegre. E está sempre entre os seus, recebendo carinho, atenção, apreço. Eles lhe são gratos e ela saboreia o envelhecer envolta em amor, laços que não se desfazem, vida que se aprimora e se renova com a chegada de cada novo integrante da família. E a matriarca está lá, como fonte de referência, como elo entre as gerações, sendo cuidada e paparicada e, acima de tudo, sendo amada.
Ela envelheceu vendo a casa cheia. Filhos, netos, genros e noras. Viúva, fechou-se para um novo amor. Viu partir um filho, uma filha, pedaços de si. Envelheceu juntando amarguras, dissabores. E foi vendo outros se afastarem. Dos cinco filhos, restaram três, destes, apenas uma decidiu cuidar e zelar pela mãe já velha e doente, tão carente. E ela já não tem vaidades nem vontades, apenas saudades. E lembra do que foi, do que passou, do que ficou. E chora sem muita esperança, sem muito em que se apegar. Ah quem dera pudesse fazer o tempo voltar, talvez teria sido diferente, talvez!
Ela envelheceu sozinha. O marido morreu, os filhos foram cuidar da vida, os netos igualmente. Os bisnetos, pouco vê. Mas ela entende que nesse corre corre da vida já não há tempo para a mãe, a avó, a bisa, a sogra. E ela entende que cumpriu sua missão e que, agora, resta esperar na mansidão dos dias que se arrastam, na solidão de quem muito viveu. E por vezes chora sozinha, lembrando dos seis filhos, do muito que trabalhou, do quanto amor lhes deu, do tanto que os ajudou. e se orgulha em sabê-los bem, vida equilibrada, saúde, família formada. Mas sente-se abandonada! Porém não reclama, tudo entende, tudo aceita, lamúria não lhe apraz.
Ela envelheceu e deixou-se mergulhar na solidão. Acalentou desamores, dissabores, tristezas. Enquanto pode soube aproveitar o lado bom de viver, divertiu-se, riu, fez rir. Amou, foi amada; abandonou, foi abandonada. E hoje já não sabe o que esperar, já cansou de bradar, já cansou de brincar de vida. E cobra atenção, carinho, amor. Mas na solidão dos dias a vida passa, as lembranças voltam, as lágrimas teimam em cair. E num dia está ótima, no outro nem tanto. E em alguns se refugia de tudo e de todos, na angústia que invade, na saudade que dói, na vida que se desfaz.
Ela envelheceu preparada para a vida longa, sem remorsos ou ressentimentos, sem medos nem sobressaltos. Ela envelheceu meio que de qualquer jeito, sem preparar a si nem aos seus. Ela envelheceu sem querer, esperando colher um pouco do muito que plantou, mesmo que a espera pareça em vão. Ela envelheceu sem perceber, sem estar pronta, sem entender o porquê, sem saber o que agora fazer!
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