quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

30 DIAS

                            Hoje faz exatamente 30 dias que não fumo um único cigarro sequer! Para quem está de fora e nunca passou por esta experiência parece nada, mas para mim parece uma eternidade. Costumo dizer que estou vivendo um dia de cada vez e assim superei os primeiros trinta.
                            Também hoje voltei ao trabalho depois de quase dois meses de recesso e férias. Esta volta também mexeu comigo, não sabia como seria. Fiquei ansiosa desde segunda-feira, pensando que teria que conviver com fumantes novamente, enfrentar as pessoas depois de tanta reclusão e sabendo que meu rendimento estaria comprometido por causa dos efeitos do Champix.
                            Então fui, pedi para falar e contei a todos do meu setor o que estava acontecendo, tudo o que eu tinha passado neste tempo de recolhimento voluntário. Falei do pé quebrado, da luta contra a dependência do cigarro, dos efeitos da droga no meu organismo, do fim do namoro, da depressão e do blog, meu refúgio.
                            Depois voltei a trabalhar normalmente, com lentidão, ainda me readaptando, mas sem neuroses.
                            Sempre fui boa ouvinte, confiável, se é para levar a sério eu levo e quem me conhece sabe disso. Então, pelos corredores, cada vez que saia da sala, encontrava alguma colega precisando desabafar. De repente me dei conta de que todos têm problemas e que todos têm dificuldades em encontrar com quem falar, então ouvi.
                            A primeira me disse que está com medo porque o médico mandou que ela esteja em seu consultório amanhá às sete horas para conversar sobre o resultado de uma biópsia. Tem a minha idade, talvez esteja com alguma doença mais grave, o marido está viajando a trabalho e vi nos seus olhos a insegurança. Então até me ofereci para ir junto, mas ela recusou e disse que confia em Deus e vai dar tudo certo.
                            Depois veio outra falar que separou do marido depois de vinte anos de casamento. Decisão pensada, repensada, adiada por anos, mas que, quando concretizada machuca, dói, dá uma sensação estranha de perda, de fracasso. Já passei por isso. Contou que pegou os dois filhos e saiu de casa. Agora sente-se sozinha, com o peso do mundo sobre si...Também tem a minha idade e sei o que está sentindo. Combinamos de nos encontrar fora do trabalho para conversarmos melhor.
                            Encontrei a terceira que me criticou por ter tirado férias com o pé quebrado em vez de licença para tratamento de saúde. E começou a falar "para eles somos apenas números, não contamos, não somos gente, não temos direitos, já passei por cada coisa aqui dentro..." e enquanto ela falava lágrimas brotavam-lhe nos olhos. Mágoas, dissabores, decepções acumuladas!
                            E mais uma veio me falar que, para sua surpresa, ao voltar hoje das férias havia sido removida de setor. Ninguém havia perguntado se ela desejava mudar, nem explicaram o porquê, simplesmente mudaram-na. Quase 30 anos de serviços prestados e sem direito de opinar, de escolher, também estava magoada.
                            Então fui esquecendo minhas dores e temores, fui ouvindo, meio com pressa, primeiro dia de trabalho, tanto por fazer, mas elas precisavam de mim para ouvi-las, era só o que podia fazer, ouvir!
                            E nestes momentos a dor do outro parece tão mais importante que a nossa! Na verdade esquecemos as nossas para acolher quem está precisando de nós naquele momento. Isto faz bem quando estamos bem. Confesso que se estivesse naquela fase depressiva, chorosa, desanimadora, teria absorvido todos estes problemas, teria chorado com elas. Mas como já estou bem melhor consegui dar a cada uma o meu melhor sorriso de amizade, companheirismo, cumplicidade. Disse a cada uma que podem contar comigo, pois passei por uma fase ruim mas melhorei. E agora compartilho tudo com vocês!
                            Problemas todos têm! A proporção que atingem depende da importância e da direção que damos a eles. Às vezes fazemos tempestades por nada, outras reagimos com firmeza a duros golpes. Mas é sempre bom poder partilhar, dividir, falar alivia e ouvir o outro faz com que enxerguemos as coisas sob novos ângulos, novos pontos de vista, novas perspectivas.
                            Conseguir falar e saber ouvir! Duas coisas difíceis, mas que podem fazer uma diferença enorme na vida da gente! 

MARIA CONCEIÇÃO DE AGUIAR

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